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Reivindicando o Legado da Deusa

deusa

“Tanto tempo quanto tivermos apenas um Deus homem no Céu, teremos dirigentes homens na Terra. No entanto, a Mãe Divina ressurgirá e
Ela será reverenciada de forma tão livre e plena como o Pai Celeste. Somente então a mulher poderá encontrar o seu verdadeiro poder e o
seu lugar no mundo será reconhecido e respeitado.”

Antoinette Doolittle, 1872
Citada no livro A God Who Looks Like Me, pág. 121, de Patrícia Lynn Reilly

 

A civilização ocidental ficou marcada pelo arquétipo exclusivo do Pai, relegando totalmente o da Mãe. Reverenciando unicamente o princípio paterno e suprimindo a existência do Sagrado Feminino, o cristianismo distorceu a visão das mulheres no Ocidente, imprimindo no subconsciente individual e coletivo o “complexo do pai”.
Durante os últimos 2.000 anos, as múltiplas manifestações da Grande Mãe, conhecidas nas culturas de todo o mundo antigo, foram reduzidas pelo cristianismo a um único estereótipo masculino, que trouxe perdas e sofrimentos terríveis às mulheres. Desprovidas de um modelo feminino para identificarem-se com o Divino, elas foram obrigadas a permanecer em um estado de dependência psicológica em relação aos homens e à autoridade social, cultural, política e espiritual do sistema patriarcal. Todos os aspectos da Grande Mãe representando a experiência feminina – como o poder sagrado do seu sangue menstrual, a sua sexualidade, a bênção de conceber e dar à luz, os dons de sensibilidade e criatividade, a percepção mágica da realidade, a sabedoria da velhice – perderam seu significado mítico e real e seu valor transcendental.

Para que a mulher pudesse se identificar com o Divino, ela devia negar a sua identidade, pois por não ter sido criada à semelhança do Pai, ela não tinha acesso aos conhecimentos sagrados, nem ao sacerdócio, ficando confinada ao papel de “fiel obreira a serviço do Senhor”.
A negação do Sagrado Feminino não somente empobreceu a imaginação feminina, deixando as mulheres desnutridas espiritualmente, mas ocasionou graves danos à saúde psíquica, individual e coletiva, e levou à usurpação e poluição da Terra que, por não mais ser reverenciada como Mãe Sagrada, podia ser explorada em função de interesses econômicos e políticos.
Entretanto, o pêndulo cósmico, movido pela sucessão de ciclos, iniciou no século XX o movimento contrário, revalidando antigos conceitos históricos e cosmológicos e proporcionando o ressurgimento atual dos valores e tradições do Sagrado Feminino. Segundo a astróloga e escritora Demetra George, a ativação dos novos centros de consciência humana e dos arquétipos mitológicos adormecidos das deusas foi ocasionada pela descoberta de vários asteroides, principalmente os que receberam os nomes de Ceres, Juno, Pallas Athena e Vesta, cujos mitos representam os problemas prementes das mulheres atuais (nutrição, dependência afetiva, relacionamentos, traições, busca de afirmação pessoal, despertar da chama sagrada, entre outros).
Após um desaparecimento milenar, a Deusa está emergindo renovada. Lembrando o mito da deusa grega Hera – que se refugiava periodicamente no deserto, escondida dos Deuses e dos mortais, para renovar a sua pureza, surgindo depois fortalecida e rejuvenescida –, podemos traçar um paralelo com a trajetória dos ciclos dos cultos da Deusa. Demetra George considera o “desaparecimento” da Deusa após um ciclo de 40.000 anos como um profundo sono incubatório, durante o qual Ela se preparou para o atual renascimento, usando as reminiscências das suas antigas culturas destruídas para fertilizar e nutrir as novas e ilimitadas possibilidades do próximo ciclo. Aceitando a natureza cíclica do desenvolvimento, florescimento, morte e renascimento dos cultos da Deusa ficaremos livres de julgamentos,  acusações e ressentimentos em relação aos opressores, transcendendo assim a dualidade e separatividade, saindo do papel de vítimas, praticando o perdão e compreensão e empenhando-nos na busca de uma nova visão pessoal, coletiva e global.
Com a atual falência espiritual da supremacia patriarcal, percebemos inúmeros sinais do ressurgimento do Sagrado Feminino nas artes, na literatura, nas práticas espirituais, nas terapias, na mudança de consciência.
Para favorecer este florescimento dos arquétipos femininos que estão brotando aos poucos do inconsciente pessoal e coletivo, precisamos lembrar, compreender, aprofundar e reinterpretar os arquétipos mitológicos das deusas. Os mitos menos conhecidos – e que sofreram modificações e adaptações ao longo dos tempos – são os originados nas culturas pré–patriarcais e que sobreviveram em algumas tradições nativas. A cultura grega nos transmitiu mitos mais recentes e precisos, os arquétipos de deusas sendo claramente diferenciados. Porém, por serem oriundos de um sistema patriarcal, podemos constatar, ocultos nos mitos, de forma metafórica ou detalhados de forma explícita, os mesmos valores, atitudes e crenças que ocasionam conflitos, bloqueios, dificuldades e feridas psicológicas nas mulheres atuais. O casal de psicólogos e escritores Jennifer e Roger Woolger denominou este “legado do exílio psíquico do feminino” de chagas das deusas, por serem ferimentos produzidos pela supremacia masculina das sociedades patriarcais.
A coexistência de deuses e deusas no panteão grego é conflituosa, como demonstram as eternas brigas do casal olímpico Zeus e Hera. As imagens das deusas são muitas vezes contraditórias e confusas, precisando dos heróis para realizarem seus objetivos e ficando sempre à mercê dos deuses, que as violentam ou usam a seu bel-prazer. Apesar desta “fragilidade” das deusas gregas, elas ofereciam às mulheres da Grécia Antiga modelos transcendentais para a expressão do seu potencial psíquico e espiritual, sendo permitida e estimulada sua participação nos cultos e nos rituais. Os famosos Mistérios de Eleusis, celebrados por sacerdotes e sacerdotisas durante quase 2.000 anos, foram a última manifestação da veneração da Deusa na Europa e exerceram uma influência preponderante sobre a cultura clássica, deixando também seus vestígios em inúmeros ritos cristãos.
As religiões pré-patriarcais cultuavam a onipotência e abrangência da Mãe Divina e, apesar dos seus vários nomes, ela era essencialmente a mesma Deusa em toda parte. A religião grega preservou a Deusa, mas a dividiu em deusas departamentais, enfraquecendo assim o culto e a
imagem global da Mãe. Esta divisão da Deusa foi uma consequência da política patriarcal de “dividir para governar”, pois os mitos gregos ao descreverem rivalidades e competições entre as deusas incentivavam assim comportamentos parecidos nas mulheres. Mesmo tendo “sobrevivido” até hoje, as deusas gregas foram despojadas do seu poder primordial, recebendo atribuições específicas, mas parciais e incompletas. São estas imagens que foram preservadas nas lendas, idealizadas durante a Renascença, ignoradas e perseguidas durante a “Idade das Trevas” e que estão sendo relembradas atualmente.
Devido à complexidade da nossa cultura, a compartimentalização da Grande Mãe se afina com a nossa mentalidade atual. Dificilmente – para não dizer impossível – poderia ser restaurada a imagem única de uma Grande Mãe primordial. Mas, o que podemos fazer é conhecer, meditar e aplicar os atributos e as qualidades das diversas deusas antigas na nossa moderna vida cotidiana.
O simbolismo da Deusa nutre a imaginação das mulheres, fortalece o seu poder interior e sustenta seus interesses e necessidades. Seja na
forma de uma única imagem – a Grande Mãe –, seja imaginando-se as várias deusas como representações metafóricas das energias, desafios e possibilidades da nossa vida, elas favorecem o reconhecimento e valorização do nosso corpo, da nossa mente, do nosso coração e do nosso espírito. Reconhecendo-nos como seus filhos e filhas – portanto, irmãos e irmãs de criação – poderemos descartar os jogos de domínio e competitividade, viver conscientemente o “animus” e a “anima” e reconstruir um novo equilíbrio nos relacionamentos e na sociedade.
A mentalidade necessária para o novo milênio requer o direcionamento dos nossos pensamentos e aspirações para as promessas e possibilidades do futuro. Criando conscientemente a imagem de uma Deusa Universal, poderemos colocar os alicerces de uma nova consciência, que recupera as riquezas ocultas da nossa sabedoria ancestral e expressa a reverência pela totalidade do nosso planeta. Conseguiremos assim transpor os limites de tempo, espaço, fronteiras, raças, crenças e linguagens, para erguer uma egrégora de esperança, paz, amor, respeito e integração.

 

 

 

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