Tradição Xamânica Andina

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O Xamanismo é a expressão mais arcaica da espiritualidade da espécie humana, e provavelmente a mais difundida através do tempo e espaço.

O que hoje chamamos de sobrenatural era percebido como uma manifestação de poder impressionante, sem rosto ou forma. Suas manifestações eram as forças da natureza que terminaram fazendo com que surgissem os deuses entre nós e seus cultos. Naquelas épocas remotas, a difusão do Xamanismo era planetária, e o processo histórico não acabou com ele. Não existe grupo nômade ou seminômade de caçadores, pastores e coletores que não conte com uma mulher ou homem sagrado que ao mesmo tempo é um vidente capaz de ver o desconhecido. Este é o xamã, cuja função é controlar o incontrolável, transformar o sagrado aterrador em uma força terapêutica, buscar almas perdidas dos enfermos subindo até as estrelas por meio de “cordas mágicas”, cavalgando o Dragão, ou viajando até a Terra dos Mortos.

Quando da chegada dos europeus às Américas, o Xamanismo estava presente desde as culturas dos esquimós, passando pelas planícies norteamericanas, a Amazônia, Andes, até a Terra do Fogo, sendo suas cerimônias e rituais similares as dos povos asiáticos e de outras regiões do mundo, o que parece ser uma misteriosa consequência casual que interconecta, como um fio sutil, o Xamanismo no tempo e espaço. A Tradição Xamânica Andina, como a de outras culturas nativas, chega até nós através de eras. Para isso, teve que se adaptar para sobreviver à invasão europeia e ao genocídio da inquisição, tendo inclusive que viver em constante transformação, mas não deixando de perder sua essência sagrada.

A palavra Tradição em si, tem um significado originário que pertence à esfera sacro e espiritual, e não como sinônimo de algo costumeiro. Nós a utilizamos aqui de acordo com seu verdadeiro significado. Ela vem do latim tràdere que significa “transmitir”, ou seja, no Xamanismo Andino ela se refere à transmissão do conhecimento cultural através do tempo e espaço: cerimônias, mitos, tradição oral, ritos iniciáticos e técnicas de êxtase.

O que me impulsionou a escrever este livro foi a profunda riqueza da tradição que durante anos foi alvo dos meus estudos. Nos Andes, encontrei guardiões dessa sabedoria ancestral que a assimilaram em suas vidas de forma natural. Tive a honra de ser acolhido por eles e ser um dos depositários de seus conhecimentos ancestrais. Este livro é fruto das minhas investigações etnográficas junto a estes sábios guardiões de uma tradição oral, e que procuro aqui, expor em palavras escritas. Este saber foi transmitido de geração em geração, fundamentado na experiência e na observação da natureza, que é um acúmulo de conhecimento sobre animais, minerais, plantas e fenômenos naturais através da relação permanente com a Madre Naturaleza.

Todas as cerimônias e práticas descritas foram presenciadas pessoalmente por mim. Visitei todos os lugares que descrevo nos Andes – comunidades, montanhas, huacas , lagoas e lagos – ao lado de xamãs andinos e seus pacientes. Essa vivência direta permitiu que eu entendesse como a Xamaria Andina sobreviveu a todas as intempéries que ocorreram com a chegada dos europeus e a religião em nosso continente, tendo inclusive que se adaptar para continuar sua evolução até nossos dias.

Em minha jornada, descobri que a prática do Xamanismo é uma arte viva. As formas mudam, evoluem e se transformam. No entanto, as funções dentro das formas não mudaram ao longo do tempo ou entre culturas. É justamente essa consistência e capacidade de adaptação que faz com que o Xamanismo seja uma prática espiritual até hoje, e arrebata novos xamanistas nesse caminho.

Para os povos andinos, o sobrenatural não é separado da natureza, tudo faz parte da nossa realidade, não importando se estamos com as pálpebras abertas ou fechadas. Minha mentora me ensinou que a realidade é uma só, e que tudo que vivenciamos faz parte dela. O que para maioria dos ocidentais é sobrenatural, para os andinos é o pulsar do coração do mundo, cuja batida se escuta em cada nascimento, morte, no balançar das asas de um Beija-flor, no poder cósmico e na força fecunda da nossa Mãe Terra.

Nos Andes, aprendi que tudo tem um espírito, não só os seres humanos, mas os animais, minerais, plantas, astros, lagoas e montanhas, e por essa razão, devemos nos harmonizar e aprender respeitar a tudo que existe e nos cerca. Devemos ter em nossa mente, que somos filhos do casamento sagrado entre a Terra e o Céu, que é uma premissa do Xamanismo mundo afora e não só do andino.

Peço a todos que ao lerem este livro, o façam com a mente aberta. Minha tarefa é a de chaski, um simples mensageiro, que foi acolhido como filho por esses guardiões da sabedoria andina e foi transformado em um novo Ser.

 

 

 

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